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Embates Conceituais entre psicanálise e filosofia
| Content Provider | Semantic Scholar |
|---|---|
| Author | Gonçalves, Camila Salles |
| Copyright Year | 2015 |
| Abstract | A história das relações entre psicanálise e filosofia inicia-se, nos textos de Freud, com perfis muito semelhantes aos que, nestes, constituem referências a obras literárias e a personagens da literatura. Ao longo da obra freudiana, há múltiplas citações de filósofos e escritores, com a função de apoiar a cunhagem de novos conceitos. Personagens nietzscheanas, de Shakespeare, e de outros dramaturgos, povoam a metapsicologia freudiana. Certas menções a passagens de livros de filósofos, como Platão e Schopenhauer, revelam-se também essenciais na tessitura dos textos. Lembremos que, no escrito considerado divulgador da grande “virada” ou tournant na teoria psicanalítica, Além do princípio do prazer (1920), Freud recorre ao Banquete de Platão e a Schopenhauer, para nos falar de Eros e de Thanatos. A arte e a filosofia são postas à serviço da ciência à qual se está dando forma. Neste patamar, Lacan não fica atrás. Nada espantoso, pois são dois pensadores, criando as respectivas escritas psicanalíticas, como também fizeram outros. Na atualidade, entretanto, a absorção da filosofia pela psicanálise parece apresentar características específicas. Sem dúvida, a obra de Lacan foi decisiva nessa transformação e resultou num caminho de duas mãos: por um lado, a filosofia foi integrada em suas concepções e, por outro, algumas destas tornaram-se presentes em pontos de vista filosóficos a respeito da história da filosofia e em críticas de filosofias. É esta peculiaridade que abordo, dentro do vasto campo que se abre com o tema proposto. A concepção de sujeito teorizada por Lacan, adotada por filósofos, para muitos, marca a ruptura da concepção cartesiana. O sujeito barrado, que carrega um estranho a quem não tem acesso, contrasta com aquele concebido por Descartes, capaz de ter consciência de si, descobrir as causas do erro e criar o princípio para evitá-las. Contudo, a história da ruptura do sujeito definido por suas relações com a apreensão racional de si, de outrem e do mundo, parece ter se iniciado bem antes. Uma exposição feita por Gérard Lebrun, por ocasião de homenagem póstuma a Foucault (1) reúne uma avaliação das filosofias da representação e a análise foucaultiana de saberes, para culminar na crítica que visa à filosofia de Descartes e algumas contemporâneas: “Enquanto a psicopatologia, a medicina, a economia política pelo menos foram capazes de nos deixar entrever essa alteridade não dominável, os filósofos se preocuparam mais com nos orientar na finitude, e com nos persuadir de que, nela, ainda permanecíamos bei hause (em casa)” (2). A respeito do temário da finitude, podemos relembrar passagens conhecidas das Meditações (1641) de Descartes. Ao procurar um modo de não ser enganado por seus próprios sentidos e por suas representações, deparando-se com a dúvida, o filósofo adota, como artifício metodológico, primeiro, a ficção de um gênio maligno, que procura enganá-lo e, depois, a hipótese de um Deus enganador. Universaliza a dúvida. Na progressão de suas Meditações, desenvolve recursos para lidar com as falhas dos sentidos e da percepção. É o que será sempre preciso, já que ele não dispõe nem de percepção nem de existência infinitas, atributos do Deus veraz (3). Se aquilo que representamos em nossa mente pode ser falso, o que nos faz errar não é um gênio maligno nem um Deus enganador. Ou seja, não provém do exterior. A partir da constatação de que se duvido, penso, existo, eu sou, o filósofo chega ao famoso Cogito ergo sum: “penso, logo existo”. Há, neste raciocínio, uma ligação necessária, portanto verdadeira e inabalável. A filosofia disporia então de um modelo de pensamento claro e distinto (4), que asseguraria a possibilidade do conhecimento e da ciência, ao mesmo tempo em que indicaria os limites do entendimento (finitude). Lebrun assinala a insuficiência desse princípio de prevenção do erro ou do engano, que se teria evidenciado a partir de “novos saberes” e de uma outra “ideia de finitude”, assinalados por Foucault, que parece ter se apropriado da expressão “figura da finitude”, empregada por Hegel, para designar o saber limitado e as causas atribuídas aos limites. A ideia anterior de finitude teria desaparecido no século XVIII, principalmente em consequência da ação da psicologia e da psiquiatria. Não seria mais questão, para estes saberes, de circunscrever a loucura e não se trataria mais de pesquisar os erros dos sentidos. O comentador ressalta que a psicologia teria permanecido na encruzilhada entre “enfrentar a escura verdade do homem” e tentar algo como filosofar a marteladas, isto é, numa atitude à la Nietzsche, de liquidar com a tradição de critérios de busca e obtenção da verdade, ou ainda, propor um conhecimento pretensamente verdadeiro a respeito do homem, o que a teria levado a uma polêmica interminável com as analíticas da finitude (5). Mais audaciosa, a medicina teria posto em cheque, sobretudo, a ideia de doença como desvio. A ação, a fala e o pensamento humanos aparentemente aberrantes teriam tido o sentido de escaparem à razão. Tudo se teria passado então como se a loucura ou a desrazão existisse apenas em certos indivíduos. Os novos saberes teriam mostrado a inconsistência desse suposto conhecimento. Destaco mais estas considerações feitas por Lebrun, entremeadas por citações de As palavras e as coisas: “Em muitas regiões os novos saberes transferem, sigilosamente, a verdade do ser humano para uma alteridade indissolúvel – que, no limite, dissolve o homem. Eles abrem ‘uma enorme sombra’ que as analíticas da finitude tentam dissipar – porém, em vão. Esta sombra que vem de baixo é como um mar que se tentasse beber” (6). A Arte e A filosofiA são postAs à serviço dA ciênciA à quAl se está dAndo formA |
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| Ending Page | 46 |
| Page Count | 4 |
| File Format | PDF HTM / HTML |
| DOI | 10.21800/2317-66602015000100015 |
| Alternate Webpage(s) | http://cienciaecultura.bvs.br/pdf/cic/v67n1/v67n1a15.pdf |
| Alternate Webpage(s) | https://doi.org/10.21800/2317-66602015000100015 |
| Volume Number | 67 |
| Language | English |
| Access Restriction | Open |
| Content Type | Text |
| Resource Type | Article |